Mais uma vez tenho que enfrentar o Golias, Sr. Ressonância Magnética, o Grande Contraste. Estou tranquila mas tudo volta à minha lembrança. Minha caminhada para a batalha épica. Pouco menos de sete meses atrás.
O calor escaldante. O trânsito uma lástima. Minha correria para não chegar atrasada. E minha angústia. Só de pensar em ficar vinte e cinco minutos dentro da boca de Golias, com seus gritos ensurdecedores, me causavam um pânico quase incontrolável. Bem, agora estou indo. Procuro dentro de mim algum resquício de pavor. Terei que enfrentar Golias duas vezes nos próximos oito dias. Tudo que encontro dentro de mim é uma paz e uma tranquilidade inexplicável.
Penso que quando estiver próximo, meu coração vai acelerar e vou ter que clamar feito louca, pedindo forças ao Senhor.
O trânsito corre tranquilo. Saí de casa com duas horas de antecedência. Dessa vez não vou correr. Vou enfrentá-lo calmamente. Consigo um lugar no ônibus e sigo tranquila.
Levo quase meia hora para atravessar uma avenida. Parece que o sinal estragou. Um policial, que também aguardava, para o trânsito a fim de podermos atravessar. Todos agradecem. Meu coração está cheio de gratidão. Experimento que realmente o perfeito amor lança fora todo o medo. E prossigo calmamente até à Clínica.
Hoje não a enxergo como um prédio frio, tenebroso. É bonita. Até acolhedora. Percebo que a maneira de encarar as circunstâncias tem um enorme poder sobre a realidade.
A atendente demora mais que o normal, mas isso não me estressa. Ela é muito atenciosa e gentil. Consegui autorização para fazer três ressonâncias de uma vez só.
Após as assinaturas, me entrega os papéis e me encaminha à entrada. Um senhor muito atencioso me dá as boas vindas e me apresenta a uma outra moça, afirmando que cuidará muito bem de mim. É assim que me sinto, cuidada.
Descemos pelo elevador. Foi tão rápido. Assim que a porta se abre, dou de cara com Jonny Deep no seu personagem em Piratas do Caribe. Vejo novamente o lindo Matt Damon, em cenas do Bourne. E algumas cenas da África que eu tanto amo. Me sinto em paz.
Na recepção sou atendida pelo Nicolas Cage. Os mesmos olhos. Muito atencioso, me explica os procedimentos. Me tranquiliza até da ressonância da semana que vem, que é uma modalidade nova para mim. Faço piada. Sorrio. Estou tranquila.
Respondo a um enorme questionário. Sou encaminhada ao vestiário. Troco minhas roupas. E me sento em uma agradável sala de espera. Acho tudo tão limpo e lindo. As enfermeiras conversam e sorriem, combinando o almoço mais tarde. Lembro que minha filha vem me buscar e vamos almoçar juntas, com minhas duas netas. Penso em um restaurante que inaugurou a pouco e que queremos muito conhecer. Enfim, meu ânimo é outro. Vou apenas enfrentar Golias. Ele já é morto.
Só então reparo que não tinha ouvido seus gritos. Escuto. São gritos baixos. Não me intimidam. E penso na bondade de Deus. Essa sou eu?
Sou acompanhada pelo Nicolas Cage, é muito parecido. Ele conversa carinhosamente comigo. A rampa que descemos não parece tão longa e amedrontadora como da vez anterior. É a mesma rampa. Não mudou. Eu mudei.
Ele me deixa confortavelmente sentada aguardando enquanto prepara o Golias. Estão todos silenciosos. Nenhum grita desaforos como da outra vez. Sento ao lado dos "arquivos da Enterprise", que trabalham freneticamente, imprimindo imagens de alguma ressonância. Lembro que estou de costas para o lindo Jonny Deep, num campo maravilhoso. Levanto-me e quase o cumprimento, ainda incrédula por ter que ficar de costas para ele e para aquela cena tão confortadora.
Uma enfermeira vem conversar comigo. Me pergunta o porquê das ressonâncias. Explico. Me informa delicadamente que será demorada. Pergunto o tempo estimado. Responde que será de mais de uma hora. Penso na Fernanda. Tomara que demore para chegar. Assim não vai esperar muito.
Peço ao Senhor que me ajude. É duas vezes mais tempo que já fiquei dentro de Golias. Não estou naquela angústia de "vou cantar, vou cantar, vou cantar". Aquela barulhada toda me desconcentra. Vou orar, cantar, pensar, sonhar. Simplesmente deixar o tempo passar. Sem me preocupar. Estou cansada. Vou descansar.
Chega a hora. A enfermeira chama meu nome. Meu coração não dispara. Minha boca não amarga. Esse Golias é ainda maior. Vamos lá. Ela explica calmamente os procedimentos. Primeiro em uma posição. Depois colocará um aparelho. Outra posição. Saio. Contraste. Entro. Uma posição. Outra posição.
Deito. Delicadamente ela me cobre. Coloca fones nos ouvidos. Me entrega uma campainha para alguma emergência. Me instruí a ficar o mais imóvel possível.
A cama sobe. Entro no tubo. Muito baixo. Fecho os olhos. Uma hora e meia. Vai passar rápido. Claro que não é uma experiência agradável. É algo claustrofóbico mas não estou em pânico. Penso que se eu não aguentar, chuto a almofada onde estão descansando minhas pernas e saio rapidamente dali. Simples assim. Não é uma prisão. É apenas uma máquina.
Penso no inventor. Que invenção maravilhosa, apesar de tudo.
De vez em quando, pelo microfone, me pergunta se estou bem. Respondo que sim. Só assim tenho certeza de que não me esqueceram aqui. Estou certa de que já passou uma hora e ainda não colocaram o tal aparelho.
Enfim, ouço passos. O aparelho me faz lembrar a máscara usada em Silêncio dos Inocentes. Se estava apertado dentro de Golias, muito mais agora. Mas não estou desesperada. Penso em coisas agradáveis e o tempo passa. Presto atenção aos barulhos emitidos por Golias. Alguns parecem um coral. Vozes masculinas e depois o soprano. Até latidos de cachorro. Novamente passos. Mudo de posição. A enfermeira avisa que ficarei numa posição mais desconfortável. De bruços. Prefiro. Quase cochilo. O tempo passa. Tenho certeza que esqueceram de mim. Se não fosse tanta gritaria, eu teria dormido. Sonho, mesmo acordada. Novos passos. É a hora do contraste. Outra enfermeira. Muito atenciosa. Não encontra minha veia. Não me estresso. Conversa calmamente comigo. Estou tranquila. Chama um enfermeiro. Docemente procura uma veia. Encontra. Fica de mãos dadas comigo até injetar todo o contraste, certificando-se a cada instante se estou bem. Sinto-me cuidada.
Penso na Fernanda. Já deve estar lá fora. Com fome. Tenho a impressão de que estou aqui à tarde toda. Volto para o Golias. De bruços. De frente. Tudo que consigo pensar é na bondade do Senhor. Nunca ia suportar ficar esse tempo todo aqui. Já teria tido uma crise de pânico, corrido, desmaiado, morrido.
Enfim, as palavras tão esperadas: acabou.
Outra enfermeira me acompanha. Subimos a rampa. Tenho a impressão de ter dado apenas três passos e já vejo minhas três riquezas, tão lindas, me esperando. Abraço e beijo. Vou com a enfermeira para colocar um adesivo onde as veias foram furadas. Troco de roupa.
Vejo a hora. Fiquei duas horas e cinquenta minutos dentro de Golias. A certeza da bondade de Deus me invade. Me inunda. Todo esse tempo? Estou bem. Só posso dizer "Obrigada Senhor". Nem tonta estou. Apenas com fome. Comento sobre os quadros com a Duda. Tudo parece tão lindo. Luísa quer o meu colo. Eu a pego. E saímos dali como se estivéssemos em uma galeria de artes. Essa realmente sou eu? E meu coração mais uma vez se enche de gratidão. O Senhor realmente nos transforma. Há situações que não são transformadas, que precisamos passar, mas Ele nos transforma e nos capacita para enfrentar e vencer. Como é bom pertencer a um Deus que é amor. Sabendo que somos cuidados, a cada dia.
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quarta-feira, 1 de junho de 2016
sexta-feira, 23 de outubro de 2015
Sr. Ressonância Magnética
Sexta feira. Um dia depois do meu aniversário.
Amo o dia do meu aniversário. Bendito o dia em que nasci. Bendito o dia em que disseram: "É uma menina." E dei meu primeiro grito. Para tirar o ar dos meus pulmões e respirar. Como é bom viver!
Mas tenho que enfrentar o gigante Golias, Sr. Ressonância Magnética, o Grande Contraste!
Entro no ônibus. Um calor escaldante. O termômetro marca 36 graus. Está mais. Muito mais. Engarrafamento. Ônibus cheio. Sentada. Mesmo assim apertada. Janela pequena. Cabeça dói. Lateja. Acho que vou chegar atrasada. Vou ter que andar bastante. Quase correr. Os sinais fechados. O ônibus dá uma volta enorme. É melhor descer aqui ou ali? Na próxima. Desço. Caminho. Quase corro. Voo.
Lembro que bebi água. Será que podia? Cheguei. Ufa. Pego a senha. Olho a hora. Em cima. O jejum era só de comida. Ainda bem. Se tem que enfrentar Golias, melhor que seja logo. Odeio lembrar dos gritos dele. Assino a papelada. Passo pela recepção. Me acompanham até o elevador. Desço um andar. Passo por fotos de filmes. Matt Damon. Amo. Mas nem vi que era ele. Só depois que a Fernanda me falou. Só enxergo Golias. Embora nem saiba ainda onde ele está. Escuto seus gritos. Me afrontando.
Deixo todas as minhas coisas em um armário. Ah, ainda posso ficar uns minutos com o celular. Que bom! Posso contar a alguns amigos que estou escutando os gritos de Golias!
Fernanda chegou. Um rosto amigo. Abrigo. Descanso depois do enfrentamento.
Estou sentada na recepção. Veia pulsionada. Em trinta dias, essa mesma veia já foi atacada umas oito vezes. Nem sofre mais. Não reclama. Só se oferece. Sangue pronto. Disponível.
Tenho que ficar sozinha. Falo com alguns amigos ao mesmo tempo. Bendito celular.
Pergunto quanto tempo vou ficar dentro de Golias. Uns trinta e cinco minutos. "Senhor", pergunto, "o que vou fazer lá dentro?" E me programo. Orar, cantar, sonhar, lembrar de tudo que ouvi, li e vi no meu aniversário. Imaginar como será minha festa amanhã? "Senhor, é muito tempo para me concentrar dentro daqueles gritos!" Espero.
Daqui a pouco vou estar dentro de Golias. Dentro dos gritos dele. Odeio gritos. Amo música. Canto da hora que acordo à hora que vou dormir. Canto dormindo. Mas odeio gritos.
Meu consolo é a Fernanda me esperando. E a Júlia chega hoje. Vou estar com minhas três filhas lindas. Só vai faltar o Dudi. E amanhã, a festa que elas estão organizando. E excelência é o nome delas.
Chegou a hora. Desço uma rampa. Enorme. As fotos não são mais do Matt Damon, lindo em Identidade Bourne. Não sei se são de filmes sobre o Holocausto ou se do próprio Holocausto. Não entendo. Estamos indo enfrentar Golias. Por que não colocam um campo florido? Podia até ser Girassóis da Rússia, mas Holocausto? É para aumentar nosso pavor?
Lembro do meu herói. Ele venceu. Com uma funda. E pedrinhas. Vou cantar. Vou cantar. Vou cantar. Vou ficar dentro de Golias e vou cantar.
A enfermeira manda eu sentar em um corredor. Sento. Tem cinco Golias. Todos gritando. Um barulho ensurdecedor. Uma enfermeira sai de dentro de uma sala e lacra um. Lacra. Como se fosse um submarino. E penso, "Senhor, por favor, não quero ficar lacrada, dentro de Golias!" Minha vontade é sair correndo. Sei que não posso. Vou cantar. Vou cantar. Vou cantar.
Vejo dois arquivos. Me lembram Star Trek. Por um instante me desligo daquele horror. Mas não estou na Enterprise. Estou prestes a entrar na boca de Golias.
Percebo que há um quadro atrás de mim. Me levanto. Um alento. Johnny Depp. Simplesmente lindo. Maravilhoso. Sentado num campo florido. Não entendo. Por que a cadeira não está do outro lado? Fico em pé. Um colirio em meio àquele horror. Quase coloco a cadeira do outro lado. Mas fico simplesmente ali, em pé. Lembrando daquele filme. Até que canso. Sento. De costas para o Johnny Depp. Um verdadeiro absurdo. Quando vão me chamar?
Golias, continua gritando. Não apenas um. Vários. Com pessoas lacradas dentro deles. A sala de controle é lá embaixo e os Golias ao meu lado. E se eu passar mal? Não vou poder sair correndo. A porta lacrada. Até alguém subir uma rampa enorme da sala de controle até um dos Golias. "Senhor, tem misericórdia!"
Tenho que ir. Uma enfermeira chama meu nome. Ao lado da sala de controle. Glórias a Deus. Golias está ficando menor. Desço mais uma enorrrrrrme rampa. A porta que ela abre não é de lacrar. É uma maçaneta comum. Glórias a Deus! Golias diminui mais um pouco. Entro na sala. Sua boca é do meu tamanho. Mas é aberto do outro lado. Vou cantar. Vou cantar. Vou cantar.
A enfermeira é doce. Deito. Me cobre. Coloca um fone. Brinco com ela dizendo que podia ter uma música bem gostosa no fone. Ela brinca de volta. Penso que podia ter uns quadros na sala. Do Tyrese Gibson estava bom. Estaria ótimo! Enfim, entro dentro de Golias. Fone no ouvido. Dois protetores. Mais um. Outro. 40 graus lá fora. Ela me oferece um cobertor. Aceito. Frio. Muito frio. Me explica tudo. Nos mínimos detalhes. O contraste só no final. Uma sensação fria. Depois quente.
Entro completamente dentro de Golias. Fecho os olhos. Daqui a pouco ele vai começar a gritar. Berrar. Resolvo que vou orar. E começo a conversar com meu Pai. Golias berra freneticamente. E eu oro. Sorrio. Meu coração por vezes acelera tão alto Golias grita. Não abro os olhos para não me sentir claustrofóbica. Agradeço. A enfermeira pergunta se está tudo bem. Me avisa do contraste. Já? Ela disse que seria somente no fim. "Senhor, me ajuda." Da outra vez, tive uma crise terrível de asma. O contraste é injetado. Remotamente. Minhas veias gelam. Golias berra mais alto. Tento raciocinar. Canto. "Mesmo na escura noite, eu correrei pra Ti meu Pai, és o que preciso, és quem eu procuro ..."
Não consigo cantar com esses berros. Oro. Orar consigo. Minhas veias esquentam. Meu coração acelera. De repente, os berros param. Ela manda eu levantar as pernas. Está ao meu lado. Estou surda. Manda eu levantar. Pergunta se estou bem. Terminou. Estou só um pouco zonza. "Meu Deus, estou ótima."
Acabou. Foi muito mais rápido do que imaginei. Foi mais fácil. Golias é morto. Não me mete mais medo. É uma máquina morta.
Gentilmente ela sobe comigo duas rampas. Fernanda me aguarda. Subimos mais um andar. Estou só um pouco tonta. Acho que mais por fome. Barriga roncando. Vamos almoçar! Vamos comprar uma roupa bem linda para a Duda Linda ir à minha festa de aniversário! Porque a vida é bela e os gigantes estão aí para serem enfrentados e derrubados!
E amanhã é um lindo dia!
Amo o dia do meu aniversário. Bendito o dia em que nasci. Bendito o dia em que disseram: "É uma menina." E dei meu primeiro grito. Para tirar o ar dos meus pulmões e respirar. Como é bom viver!
Mas tenho que enfrentar o gigante Golias, Sr. Ressonância Magnética, o Grande Contraste!
Entro no ônibus. Um calor escaldante. O termômetro marca 36 graus. Está mais. Muito mais. Engarrafamento. Ônibus cheio. Sentada. Mesmo assim apertada. Janela pequena. Cabeça dói. Lateja. Acho que vou chegar atrasada. Vou ter que andar bastante. Quase correr. Os sinais fechados. O ônibus dá uma volta enorme. É melhor descer aqui ou ali? Na próxima. Desço. Caminho. Quase corro. Voo.
Lembro que bebi água. Será que podia? Cheguei. Ufa. Pego a senha. Olho a hora. Em cima. O jejum era só de comida. Ainda bem. Se tem que enfrentar Golias, melhor que seja logo. Odeio lembrar dos gritos dele. Assino a papelada. Passo pela recepção. Me acompanham até o elevador. Desço um andar. Passo por fotos de filmes. Matt Damon. Amo. Mas nem vi que era ele. Só depois que a Fernanda me falou. Só enxergo Golias. Embora nem saiba ainda onde ele está. Escuto seus gritos. Me afrontando.
Deixo todas as minhas coisas em um armário. Ah, ainda posso ficar uns minutos com o celular. Que bom! Posso contar a alguns amigos que estou escutando os gritos de Golias!
Fernanda chegou. Um rosto amigo. Abrigo. Descanso depois do enfrentamento.
Estou sentada na recepção. Veia pulsionada. Em trinta dias, essa mesma veia já foi atacada umas oito vezes. Nem sofre mais. Não reclama. Só se oferece. Sangue pronto. Disponível.
Tenho que ficar sozinha. Falo com alguns amigos ao mesmo tempo. Bendito celular.
Pergunto quanto tempo vou ficar dentro de Golias. Uns trinta e cinco minutos. "Senhor", pergunto, "o que vou fazer lá dentro?" E me programo. Orar, cantar, sonhar, lembrar de tudo que ouvi, li e vi no meu aniversário. Imaginar como será minha festa amanhã? "Senhor, é muito tempo para me concentrar dentro daqueles gritos!" Espero.
Daqui a pouco vou estar dentro de Golias. Dentro dos gritos dele. Odeio gritos. Amo música. Canto da hora que acordo à hora que vou dormir. Canto dormindo. Mas odeio gritos.
Meu consolo é a Fernanda me esperando. E a Júlia chega hoje. Vou estar com minhas três filhas lindas. Só vai faltar o Dudi. E amanhã, a festa que elas estão organizando. E excelência é o nome delas.
Chegou a hora. Desço uma rampa. Enorme. As fotos não são mais do Matt Damon, lindo em Identidade Bourne. Não sei se são de filmes sobre o Holocausto ou se do próprio Holocausto. Não entendo. Estamos indo enfrentar Golias. Por que não colocam um campo florido? Podia até ser Girassóis da Rússia, mas Holocausto? É para aumentar nosso pavor?
Lembro do meu herói. Ele venceu. Com uma funda. E pedrinhas. Vou cantar. Vou cantar. Vou cantar. Vou ficar dentro de Golias e vou cantar.
A enfermeira manda eu sentar em um corredor. Sento. Tem cinco Golias. Todos gritando. Um barulho ensurdecedor. Uma enfermeira sai de dentro de uma sala e lacra um. Lacra. Como se fosse um submarino. E penso, "Senhor, por favor, não quero ficar lacrada, dentro de Golias!" Minha vontade é sair correndo. Sei que não posso. Vou cantar. Vou cantar. Vou cantar.
Vejo dois arquivos. Me lembram Star Trek. Por um instante me desligo daquele horror. Mas não estou na Enterprise. Estou prestes a entrar na boca de Golias.
Percebo que há um quadro atrás de mim. Me levanto. Um alento. Johnny Depp. Simplesmente lindo. Maravilhoso. Sentado num campo florido. Não entendo. Por que a cadeira não está do outro lado? Fico em pé. Um colirio em meio àquele horror. Quase coloco a cadeira do outro lado. Mas fico simplesmente ali, em pé. Lembrando daquele filme. Até que canso. Sento. De costas para o Johnny Depp. Um verdadeiro absurdo. Quando vão me chamar?
Golias, continua gritando. Não apenas um. Vários. Com pessoas lacradas dentro deles. A sala de controle é lá embaixo e os Golias ao meu lado. E se eu passar mal? Não vou poder sair correndo. A porta lacrada. Até alguém subir uma rampa enorme da sala de controle até um dos Golias. "Senhor, tem misericórdia!"
Tenho que ir. Uma enfermeira chama meu nome. Ao lado da sala de controle. Glórias a Deus. Golias está ficando menor. Desço mais uma enorrrrrrme rampa. A porta que ela abre não é de lacrar. É uma maçaneta comum. Glórias a Deus! Golias diminui mais um pouco. Entro na sala. Sua boca é do meu tamanho. Mas é aberto do outro lado. Vou cantar. Vou cantar. Vou cantar.
A enfermeira é doce. Deito. Me cobre. Coloca um fone. Brinco com ela dizendo que podia ter uma música bem gostosa no fone. Ela brinca de volta. Penso que podia ter uns quadros na sala. Do Tyrese Gibson estava bom. Estaria ótimo! Enfim, entro dentro de Golias. Fone no ouvido. Dois protetores. Mais um. Outro. 40 graus lá fora. Ela me oferece um cobertor. Aceito. Frio. Muito frio. Me explica tudo. Nos mínimos detalhes. O contraste só no final. Uma sensação fria. Depois quente.
Entro completamente dentro de Golias. Fecho os olhos. Daqui a pouco ele vai começar a gritar. Berrar. Resolvo que vou orar. E começo a conversar com meu Pai. Golias berra freneticamente. E eu oro. Sorrio. Meu coração por vezes acelera tão alto Golias grita. Não abro os olhos para não me sentir claustrofóbica. Agradeço. A enfermeira pergunta se está tudo bem. Me avisa do contraste. Já? Ela disse que seria somente no fim. "Senhor, me ajuda." Da outra vez, tive uma crise terrível de asma. O contraste é injetado. Remotamente. Minhas veias gelam. Golias berra mais alto. Tento raciocinar. Canto. "Mesmo na escura noite, eu correrei pra Ti meu Pai, és o que preciso, és quem eu procuro ..."
Não consigo cantar com esses berros. Oro. Orar consigo. Minhas veias esquentam. Meu coração acelera. De repente, os berros param. Ela manda eu levantar as pernas. Está ao meu lado. Estou surda. Manda eu levantar. Pergunta se estou bem. Terminou. Estou só um pouco zonza. "Meu Deus, estou ótima."
Acabou. Foi muito mais rápido do que imaginei. Foi mais fácil. Golias é morto. Não me mete mais medo. É uma máquina morta.
Gentilmente ela sobe comigo duas rampas. Fernanda me aguarda. Subimos mais um andar. Estou só um pouco tonta. Acho que mais por fome. Barriga roncando. Vamos almoçar! Vamos comprar uma roupa bem linda para a Duda Linda ir à minha festa de aniversário! Porque a vida é bela e os gigantes estão aí para serem enfrentados e derrubados!
E amanhã é um lindo dia!
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