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domingo, 16 de setembro de 2018

Um refrigério em meio ao Alzheimer, o Cruel


woman in black coat holding umbrella on road

E ontem foi assim.
Estamos no Hospital.
Mamãe não quer comer. Perdeu o gosto pela comida. Não sente mais fome. Perdeu peso. Precisa colocar GTT.
É a única solução.
E assino um documento me responsabilizando pela sua vida. Eu, sua filha.
Como é difícil decidir por alguém.
Esperamos que ela recupere ao menos o gosto de comer alguma coisa. Que consiga comer com prazer. Mas não sabemos.
As garras do Alzheimer são afiadas e talvez ela nunca mais queira comer.
Uma vez fui em uma consulta com ela. O médico perguntou se sentia alguma coisa. Ela respondeu: “Muita fome”.
Mas a vida muda. De maneira inesperada. E radical.
Então minha filha chega. Ela quer estar com a avó quando ela for para o Centro Cirúrgico.
Veio com as filhas.
Ah, netos são como gotas doces de alegria. Melhor que tudo.
Minha filha ficou com a mamãe.
Fico sentada na recepção por um tempo, assistindo A Patrulha Canina, com a mais nova. Ela sabe todas as cenas. E ficamos as duas ali, rindo.
Então, chamo-as para almoçar.
A mais velha quase pulou, mas a idade não permite. Então, discretamente colocou a mão na barriga e disse que estava com muita fome.
A outra, mais nova, três anos, pulou de alegria.
Sua alegria maior que o normal. Mostrou seu sapato dourado. "Foi papai quem deu". Estava limpinho. Tinha lavado. O short de estrelas douradas. "Vovó quem deu". Que combina com o sapato. E sua camiseta de gatinho.
Fiquei pensando em como é maravilhoso decidir apenas a roupa que precisamos vestir. E nada mais.
Enquanto esperávamos a mais velha buscar minha bolsa no quarto, a mais nova viu bolas nas nuvens, árvores pequeninas e as grades na calçada, que servem para a água da chuva escoar.
Ela, curiosa, perguntou para que servia aquele buraco.
Quando criança eu era assim. Ainda sou. Gosto de perguntas. Porque gosto de respostas. Gosto de conhecimento.
Expliquei que era para água da chuva cair.
Ela me contou, com os olhos brilhando como só os de uma criança brilham, que ela e a mãe tinham tomado banho de chuva. A água estava gelada. E elas tomaram banho DE ROUPA. Ela riu com a lembrança.
Foi até mais perto, olhou e disse que o buraco era bem fundo. Não era, mas não a contrariei. Para o tamanho dela era sim.
Quando a irmã chegou, contou sobre a grade e o buraco. E para que servia. Ah, como é bom o conhecimento!
Fomos pela rua. Ela, numa alegria, numa felicidade enorme.
É tão fácil e simples ser feliz quando se é criança. É preciso tão pouco.
Do outro lado da rua, viu a fachada de um buffet que era a Arca de Noé, lotada de animais.
Ela gritava, e sorria. "Vovó eu gosto muito de bichinhos. Olha, vovó os bichinhos. Eu gosto muito."
Ela andava pela rua saltitando. Vendo, enxergando tudo. Dando tchau para o caminhão. Querendo ver o buraco que tinha em frente à Caesb. Vendo as árvores, as motos, os carros.
Era tanta alegria que as gotas doces pulavam em cima de mim. Fechei meu guarda-chuva e bebi daquela água. Daquela doçura. Daquela alegria.
Então, vi a passarela à frente.
Não sei você, eu tive medo de passarela até meus quarenta anos.
Tenho aprendido que temos que vencer nossos medos, de uma forma ou de outra. Enfrentá-los.
http://www.espalhandoasemente.com/2015/10/sr-ressonancia-magnetica.html
http://www.espalhandoasemente.com/2016/06/golias-e-vencido.html
Não sei se ela já havia atravessado uma passarela. Tudo que eu queria era que fosse uma experiência que não lhe desse medo.
Somos nós que instauramos o medo nas crianças.
Mostrei onde íamos almoçar e perguntei como íamos até lá. Fui subindo a passarela. Fomos andando rápido. Ela sorrindo, alegre. E dizia, rindo: “Vovó eu tô zonza, vovó eu tô tonta.” Mas fomos subindo. Continuou andando. Sem se importar com a altura. Quando chegamos no meio, mostrei para ela os ônibus e os carros. Ela estava fascinada.
O sapatinho dela soltou. Ela se abaixou para arrumar. Soltou minha mão. Uma moto fez um barulhão. Ela levou um susto. Me deu a mão e só.
Ia começar a descida.
Falei para ela que nós não podíamos nos soltar, senão iríamos rolar igual uma batatinha. Ela não sorria mais. Ela gargalhava. Descia rapidinho. E gargalhava.
Aquelas gargalhadas me encharcaram. Abri a boca e bebi delas. Gotas doces de alegria.
A mais velha disse que estávamos parecendo duas doidas. E nós duas só ríamos. Enquanto ela gargalhava, eu bebia suas gotas.
Lembrei que havia feito parecido com a mais velha. Agora era a vez da mais nova. A mais velha é a doçura em pessoa. Sempre.
O olhar de uma criança sorrindo é simplesmente maravilhoso. Gotas de felicidade caindo sobre mim. Sem que eu precisasse fazer nada. Eu abria a boca e engolia. Tudo. Queria ser completamente encharcada com aquelas gotas deliciosas.
Quando chegamos lá embaixo ela ria, ria, e ria. Estava cansada. De tanto rir. Ah, que cansaço delicioso.
Almoçamos. Quando veio o prato e ela viu a batatinha frita, gritou: Olha vovó. Igual a batatinha rolando, igual batatinha.”
E ria, ria, ria. Era a personificação da alegria, da felicidade.
Como é bom ser criança. Quero ser para sempre.
Almoçamos. Ela come igual a um passarinho. Falei para ela comer tudo para ficar forte e não rolar da passarela igual batatinha. Cada vez que eu falava, era motivo dela gargalhar.
Fomos para a passarela. Primeiro a subida. E ela: “Vovó, eu tô zonza, vovó eu tô tonta.” Falava e ria.
Quando chegamos em cima, olhou tudo lá de cima.
Chegou a hora de descer. “Vovó a gente vai rolar igual batatinha.”
Pedi à mais velha que desse a outra mão para ela. Estava tão cansada que realmente tive medo da felicidade dela fazer a gente rolar mesmo, igual batatinha.
Fomos descendo. As três de mãos dadas e rindo. Ela descendo e gritando. Aquela alegria, aquela felicidade. Ela foi descendo e gargalhando, falando que íamos rolar igual batatinha.
Depois que descemos, continuou curtindo o caminho. Passamos pelo buraco que eu havia mostrado. Ela quis ver de novo. Peguei no colo para ela ver. Depois, continuou andando.
Percebi que estava muito cansado. Foi muita energia gasta naquela felicidade toda que me encharcou.
Perguntei se estava cansada. Disse que sim. Mas não pediu "colinho". Perguntei se ela queria. Disse que sim. Mas não aguentei. Dei uns dois passos. Ela desceu, obedecendo à irmã, sem reclamar.
Quando chegamos na calçada do hospital, quis ir por cima da grade, olhando tudo lá embaixo. Sem medo.
Até bem pouco tempo, eu também não tinha coragem de passar por ali.
Quando chegamos ao hospital, me deu um abraço tão carinhoso e um beijo tão gostoso, que suspirei. Eu disse: “Ai que delícia”. E ela me abraçou mais e mais apertado. Várias vezes.
Depois pegou minha mão, me levou para a frente da calçada para dançarmos.
Eu, adulta, quebrei o encanto. Falei que não tinha música.
Que insensibilidade a minha. Existe música sim. Está em nossas almas.
Felizmente ela não acreditou em mim. E dançou assim mesmo. Até ficarmos tontas.
Netos, gotas doces de vida.
A GTT foi um sucesso.
Hoje pude ir para casa descansar. Minha outra filha ficou no hospital.
Cheguei em casa, tomei um banho daqueles, cantando com os Quatro e Meia.
https://www.youtube.com/watch?v=a4VMX0q-yQ4
Coloquei meu melhor sorriso e voltei ao hospital.
A vida é assim. Deus, o maravilhoso Senhor, sempre nos dá um refrigério.
Gotas doces de vida e alegria. Que podem vir de várias maneiras.
Logo estaremos em casa.
Uma nova rotina. Sobrevida.
Vida.
E veremos mamãe sorrir novamente.
O Senhor é bom. Sempre.
https://www.youtube.com/watch?v=c5U6FDoaCvQ
E meu coração continua cheio de alegres gotas de vida.
Ah, netos! Gostas doces de alegria.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Golias é vencido!

Mais uma vez tenho que enfrentar o Golias, Sr. Ressonância Magnética, o Grande Contraste. Estou tranquila mas tudo volta à minha lembrança. Minha caminhada para a batalha épica. Pouco menos de sete meses atrás.

O calor escaldante. O trânsito uma lástima. Minha correria para não chegar atrasada. E minha angústia. Só de pensar em ficar vinte e cinco minutos dentro da boca de Golias, com seus gritos ensurdecedores, me causavam um pânico quase incontrolável. Bem, agora estou indo. Procuro dentro de mim algum resquício de pavor. Terei que enfrentar Golias duas vezes nos próximos oito dias. Tudo que encontro dentro de mim é uma paz e uma tranquilidade inexplicável.

Penso que quando estiver próximo,  meu coração vai acelerar e vou ter que clamar feito louca, pedindo forças ao Senhor.

O trânsito corre tranquilo. Saí de casa com duas horas de antecedência. Dessa vez não vou correr. Vou enfrentá-lo calmamente. Consigo um lugar no ônibus e sigo tranquila.

Levo quase meia hora para atravessar uma avenida. Parece que o sinal estragou.  Um policial, que também aguardava, para o trânsito a fim de podermos atravessar. Todos agradecem. Meu coração está cheio de gratidão. Experimento que realmente o perfeito amor lança fora todo o medo. E prossigo calmamente até à Clínica.

Hoje não a enxergo como um prédio frio, tenebroso. É bonita. Até acolhedora. Percebo que a maneira de encarar as circunstâncias tem um enorme poder sobre a realidade. 

A atendente demora mais que o normal, mas isso não me estressa. Ela é muito atenciosa e gentil. Consegui autorização para fazer três ressonâncias de uma vez só.

Após as assinaturas, me entrega os papéis e me encaminha à entrada. Um senhor muito atencioso me dá as boas vindas e me apresenta a uma outra moça, afirmando que cuidará muito bem de mim. É assim que me sinto, cuidada.

Descemos pelo elevador. Foi tão rápido. Assim que a porta se abre, dou de cara com Jonny Deep no seu personagem em Piratas do Caribe. Vejo novamente o lindo Matt Damon, em cenas do Bourne. E algumas cenas da África que eu tanto amo. Me sinto em paz. 

Na recepção sou atendida pelo Nicolas Cage. Os mesmos olhos. Muito atencioso, me explica os procedimentos. Me tranquiliza até da ressonância da semana que vem, que é uma modalidade nova para mim. Faço piada. Sorrio. Estou tranquila.

Respondo a um enorme questionário. Sou encaminhada ao vestiário. Troco minhas roupas. E me sento em uma agradável sala de espera. Acho tudo tão limpo e lindo. As enfermeiras conversam e sorriem, combinando o almoço mais tarde. Lembro que minha filha vem me buscar e vamos almoçar juntas, com minhas duas netas. Penso em um restaurante que inaugurou a pouco e que queremos muito conhecer. Enfim, meu ânimo é outro. Vou apenas enfrentar Golias. Ele já é morto. 

Só então reparo que não tinha ouvido seus gritos. Escuto. São gritos baixos. Não me intimidam. E penso na bondade de Deus. Essa sou eu?

Sou acompanhada pelo Nicolas Cage, é muito parecido. Ele conversa carinhosamente comigo. A rampa que descemos não parece tão longa e amedrontadora como da vez anterior. É a mesma rampa. Não mudou. Eu mudei. 

Ele me deixa confortavelmente sentada aguardando enquanto prepara o Golias. Estão todos silenciosos. Nenhum grita desaforos como da outra vez. Sento ao lado dos "arquivos da Enterprise", que trabalham freneticamente, imprimindo imagens de alguma ressonância. Lembro que estou de costas para o lindo Jonny Deep, num campo maravilhoso. Levanto-me e quase o cumprimento, ainda incrédula por ter que ficar de costas para ele e para aquela cena tão confortadora.

Uma enfermeira vem conversar comigo. Me pergunta o porquê das ressonâncias. Explico. Me informa delicadamente que será demorada. Pergunto o tempo estimado. Responde que será de mais de uma hora. Penso na Fernanda. Tomara que demore para chegar. Assim não vai esperar muito.

Peço ao Senhor que me ajude. É duas vezes mais tempo que já fiquei dentro de Golias. Não estou naquela angústia de "vou cantar, vou cantar, vou cantar". Aquela barulhada toda me desconcentra. Vou orar, cantar, pensar, sonhar. Simplesmente deixar o tempo passar. Sem me preocupar. Estou cansada. Vou descansar.

Chega a hora. A enfermeira chama meu nome. Meu coração não dispara. Minha boca não amarga. Esse Golias é ainda maior. Vamos lá. Ela explica calmamente os procedimentos. Primeiro em uma posição. Depois colocará um aparelho. Outra posição. Saio. Contraste. Entro. Uma posição. Outra posição.

Deito. Delicadamente ela me cobre. Coloca fones nos ouvidos. Me entrega uma campainha para alguma emergência. Me instruí a ficar o mais imóvel possível.

A cama sobe. Entro no tubo. Muito baixo. Fecho os olhos. Uma hora e meia. Vai passar rápido. Claro que não é uma experiência agradável. É algo claustrofóbico mas não estou em pânico. Penso que se eu não aguentar, chuto a almofada onde estão descansando minhas pernas e saio rapidamente dali. Simples assim. Não é uma prisão. É apenas uma máquina.

Penso no inventor. Que invenção maravilhosa, apesar de tudo.

De vez em quando, pelo microfone, me pergunta se estou bem. Respondo que sim. Só assim tenho certeza de que não me esqueceram aqui. Estou certa de que já passou uma hora e ainda não colocaram o tal aparelho.

Enfim, ouço passos. O aparelho me faz lembrar a máscara usada em Silêncio dos Inocentes. Se estava apertado dentro de Golias, muito mais agora. Mas não estou desesperada. Penso em coisas agradáveis e o tempo passa. Presto atenção aos barulhos emitidos por Golias. Alguns parecem um coral. Vozes masculinas e depois o soprano. Até latidos de cachorro. Novamente passos. Mudo de posição. A enfermeira avisa que ficarei numa posição mais desconfortável. De bruços. Prefiro. Quase cochilo. O tempo passa. Tenho certeza que esqueceram de mim. Se não fosse tanta gritaria, eu teria dormido. Sonho, mesmo acordada. Novos passos. É a hora do contraste. Outra enfermeira. Muito atenciosa. Não encontra minha veia. Não me estresso. Conversa calmamente comigo. Estou tranquila. Chama um enfermeiro. Docemente procura uma veia. Encontra. Fica de mãos dadas comigo até injetar todo o contraste, certificando-se a cada instante se estou bem. Sinto-me cuidada. 

Penso na Fernanda. Já deve estar lá fora. Com fome. Tenho a impressão de que estou aqui à tarde toda. Volto para o Golias. De bruços. De frente. Tudo que consigo pensar é na bondade do Senhor. Nunca ia suportar ficar esse tempo todo aqui. Já teria tido uma crise de pânico, corrido, desmaiado, morrido.

Enfim, as palavras tão esperadas: acabou.

Outra enfermeira me acompanha. Subimos a rampa. Tenho a impressão de ter dado apenas três passos e já vejo minhas três riquezas, tão lindas, me esperando. Abraço e beijo. Vou com a enfermeira para colocar um adesivo onde as veias foram furadas. Troco de roupa. 

Vejo a hora. Fiquei duas horas e cinquenta minutos dentro de Golias. A certeza da bondade de Deus me invade. Me inunda. Todo esse tempo? Estou bem. Só posso dizer "Obrigada Senhor". Nem tonta estou. Apenas com fome. Comento sobre os quadros com a Duda. Tudo parece tão lindo. Luísa quer o meu colo. Eu a pego. E saímos dali como se estivéssemos em uma galeria de artes. Essa realmente sou eu? E meu coração mais uma vez se enche de gratidão. O Senhor realmente nos transforma. Há situações que não são transformadas, que precisamos passar, mas Ele nos transforma e nos capacita para enfrentar e vencer. Como é bom pertencer a um Deus que é amor. Sabendo que somos cuidados, a cada dia.