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quinta-feira, 25 de outubro de 2018

É hoje. Você está pronto?

Continuamos nossa caminhada pelo maravilhoso livro de 2 Reis. 

Mas antes gostaria de contar um pouco de como foi meu dia ontem. Não consegui postar nosso texto, como havia combinado com vocês. 

Se você não leu o texto 
http://www.espalhandoasemente.com/2018/09/alzheimer-o-cruel.html , convido a ler.

Após 45 dias de internação, completamente esgotados, voltamos para casa. Hoje mamãe está sendo atendida pelo sistema de “home care”, que é uma internação domiciliar.

Meu apartamento, que é bem pequeno, virou um mini hospital. Tivemos que fazer uma verdadeira mudança. Levar móveis. Comprar outros. Readaptar. Aprendendo novos termos e novas rotinas. Coisas que nunca imaginaríamos fazer, como por exemplo, passar remédio e dieta através de uma sonda, direto em seu estômago. Novos dias.

O desejo dos nossos corações é dar a ela o maior conforto possível. Para que não apenas sobreviva mas consiga perceber nosso cuidado e carinho por ela. E realmente viva o máximo, dentro de suas limitações.

A última tarefa terminou uma e meia da manhã e simplesmente apagamos.

Se você passa por situação semelhante, quero animá-lo a não desistir. Em Eclesiastes, o pregador nos aconselha a fazer tudo o que vier à nossa mão. Que façamos bem feito, com carinho e amor. Não apenas para aquela pessoa que amamos, mas como se fosse para o Senhor, como Paulo nos diz em Colossenses 3.23.

E agora, voltemos ao livro de 2 Reis.

Na última postagem vimos que, mesmo ocupando uma alta patente no exército real, um capitão teve a coragem de se ajoelhar e por tal atitude, sua vida e a vida do seu pelotão, foram poupadas. http://www.espalhandoasemente.com/2018/10/coragem-para-se-ajoelhar.html

Hoje, caminharemos através das páginas do capítulo dois. Do versículo um ao dezoito.

Vamos lá.

O texto não fala como ficaram sabendo, mas os discípulos dos profetas, assim como Eliseu, sabiam que Elias seria levado aos céus, sem passar pela morte.

Lembra de Eliseu? Eliseu trabalhava com uma junta de boi arando a terra e o Senhor ordenou que Elias o ungisse profeta em seu lugar. 
http://www.espalhandoasemente.com/2016/04/eliseu-e-seu-chamado.html

Isso não aconteceu de uma hora para a outra. Não acontece. Para alguém se tornar um profeta, leva tempo. Tempo de renúncia. De oração. De comunhão com o Senhor. De humildade. De separação. Lembra de João, o Batista? 
http://www.espalhandoasemente.com/2017/11/joao-o-batista.html

Mas agora, finalmente, parece que chegou a hora de Eliseu passar a protagonista de história, não apenas o servo de Elias. 
http://www.espalhandoasemente.com/2016/04/andando-na-presenca-de-deus.html

Estavam ambos em Guilgal. No meio do caminho, Elias ordenou que Eliseu ficasse ali enquanto ia a Betel, pois o Senhor o havia enviado até aquela cidade. Mas Eliseu não concordou. Respondeu que tão certo como o Senhor vive e como Elias vivia, não ficaria longe de Elias. Ia junto.

E foram. Chegando em Betel, os discípulos dos profetas, quando viram Eliseu, foram falar com ele. Sabiam até que seria aquele dia que o Senhor levaria Elias para os céus. Perguntaram a Eliseu se também sabia. Ele respondeu que sabia e ordenou que se calassem. 

Depois Elias lhe ordenou que ficasse em Betel, pois o Senhor o estava enviando a Jericó. A decisão de Eliseu era tão forte, que ele jurou pelo nome do Senhor e pela vida de Elias que não se separaria dele.

O que Eliseu está querendo? Quer estar junto, para presenciar o que o Senhor fará com Elias? Sabe que chegou o dia? Está pronto?

Os dois foram juntos a Jericó. Quando chegaram lá, os irmãos, seguidores dos profetas, perguntaram a Eliseu se ele sabia que naquele dia o Senhor levaria seu mestre para os céus, por sobre a cabeça de Eliseu. Ele sabia. E pediu que não tocassem mais neste assunto. Esses homens sabiam até como seria!

O que será que passava pela cabeça de Eliseu? Ah, como é difícil nos separarmos de nossos mestres, nossos líderes e das pessoas que exercem autoridade sobre nós. Ele não ia se afastar de Elias, sabia que o dia havia chegado, mas não queria que tocassem no assunto.

Elias novamente ordenou que Eliseu ficasse ali. Ele iria até o rio Jordão. O Senhor o estava enviando.

Novamente Eliseu contestou. Disse que como era certo que o Senhor vive e que a alma de Elias vivia, não o deixaria seguir só. Então, foram juntos ao Jordão.

Cinquenta discípulos dos profetas também foram. Todos queriam saber o que aconteceria. Ficaram observando à distância, quando Elias e Eliseu pararam às margens do rio Jordão. 

Elias tomou seu manto, dobrou-o e bateu com ele nas águas. Sim, isso mesmo, bateu seu manto (ou sua capa), nas águas. Imediatamente elas se dividiram. Os dois atravessaram sobre terra seca. Nenhum dos dois se molhou. Simples assim.

Logo que atravessaram o Jordão, Elias falou para Eliseu que pedisse o que quisesse que lhe fizesse. Antes que fosse levado para longe.

Eliseu não foi pego de surpresa. Não precisou “inventar” um pedido “à queima roupa”. Não. Ele sabia o que aconteceria. E estava ao lado de Elias. Esperava ansiosamente que lhe fosse feita aquela pergunta. Estava pronto para a resposta. Sabia o que queria.

Eliseu respondeu. “Rogo-te, como herança, porção dobrada de teu poder espiritual!” Uau! Será que teríamos essa coragem?

Precisamos lembrar que toda unção, todo poder, toda herança, carrega responsabilidades. Eliseu queria mais responsabilidades que Elias. Queria influenciar mais que Elias. Quanta ousadia! Sabia o que Elias havia passado. Todos os riscos de vida. Provações. Mas era o que queria. Por isso estava ao seu lado, aprendendo e servindo. De prontidão.

Lembre-se também que, quanto maior a unção, maior a responsabilidade. Maior a renúncia.

Elias respondeu que seu pedido era muito difícil. Se Eliseu o visse sendo levado, seu pedido aconteceria. Se não visse seu arrebatamento, não aconteceria.

Continuaram caminhando e conversando. De repente, um carro de fogo, puxado por cavalos em chamas, separou-os um do outro. Elias subiu aos céus, num redemoinho. 

Assim que viu tudo isso acontecendo, Eliseu gritou: “Aba, meu mestre! Meu pai! Tu foste com os carros de guerra e os cavaleiros de Israel!”

Eliseu ficou olhando, que visão era aquela! Quando já não podia mais segui-lo com os olhos, tomou suas próprias vestes e as rasgou ao meio. Em seguida pegou o manto de Elias, que tinha caído, voltou e parou às margens do Jordão. 

Tomou o manto de Elias, bateu com ele nas águas, e perguntou: “Onde está o Senhor, o Deus de Elias?”

Na mesma hora as águas separaram em duas partes. Eliseu passou sobre terra seca. Foi até o outro lado do rio.

Os discípulos dos profetas de Jericó observavam tudo à distância. Quando viram o que acontecera, exclamaram: “Eis que o poder espiritual de Elias agora repousa sobre Eliseu!” 

Foram até ele e inclinaram-se com o rosto rente ao chão. Disseram-lhe que havia cinquenta homens guerreiros entre eles, seus servos. Pediram que os deixassem ir atrás de Elias, seu senhor, afinal, podia ser que o Espírito do Senhor o tivesse levado e deixado sobre algum monte ou algum vale.

Elias lhes ordenou que não mandassem ninguém procurá-lo. Sabia que o Senhor o havia levado. Definitivamente.

Eles o importunaram até aborrecê-lo. Consentiu que fossem. Mandaram cinquenta valentes, que o procuraram por três dias sem encontrá-lo. 

Voltaram a Jericó, onde Eliseu havia permanecido. Ele os admoestou, lembrando que havia dito que não fossem.

Que aprendamos a nos calar como Eliseu e aguardar os acontecimentos, quando assim o Senhor nos orientar.

Que saibamos o que desejamos, para responder como Eliseu, no momento oportuno. Ainda que o preço seja alto.

Que saibamos perseverar, sendo servos, sendo muitas vezes invisíveis aos olhos humanos, como Eliseu. Um dia chegará a vez de sermos os protagonistas. E precisamos estar prontos.

Que saibamos agir quando chegar a hora de estarmos à frente, de sermos os protagonistas. O profeta e não mais "apenas" o "servo de Elias".

Será que o autor de Reis ainda falará de Eliseu? Ele realmente recebeu a herança que pediu?

Amanhã continuamos. Espero você. Até lá.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Precisamos prosseguir

Queridos, estou muito exausta.
Uma correria, de lá pra cá e de cá pra lá.
Vou tentar retornar amanhã e nas próximas semanas, publicar às segundas, quartas e sextas.
Não tem sido fácil a rotina com aquele Cruel.
http://www.espalhandoasemente.com/2018/09/alzheimer-o-cruel.html
Mas em Jesus somos sempre mais que vencedores, independente das circunstâncias.
Não deixe de ler a Bíblia, ela é viva e atual. Nosso alimento diário.
Olha o que Charles Spurgeon disse (assino embaixo): "Se você testou a Palavra de Deus e a comprovou, se ela é preciosa para a sua alma, você é cristão."
Amanhã espero vocês.
Continuaremos em 1 Reis, capítulo 21.
O último texto foi o final do capítulo 20. http://www.espalhandoasemente.com/2018/09/acordos-sem-aprovacao.html

domingo, 16 de setembro de 2018

Um refrigério em meio ao Alzheimer, o Cruel


woman in black coat holding umbrella on road

E ontem foi assim.
Estamos no Hospital.
Mamãe não quer comer. Perdeu o gosto pela comida. Não sente mais fome. Perdeu peso. Precisa colocar GTT.
É a única solução.
E assino um documento me responsabilizando pela sua vida. Eu, sua filha.
Como é difícil decidir por alguém.
Esperamos que ela recupere ao menos o gosto de comer alguma coisa. Que consiga comer com prazer. Mas não sabemos.
As garras do Alzheimer são afiadas e talvez ela nunca mais queira comer.
Uma vez fui em uma consulta com ela. O médico perguntou se sentia alguma coisa. Ela respondeu: “Muita fome”.
Mas a vida muda. De maneira inesperada. E radical.
Então minha filha chega. Ela quer estar com a avó quando ela for para o Centro Cirúrgico.
Veio com as filhas.
Ah, netos são como gotas doces de alegria. Melhor que tudo.
Minha filha ficou com a mamãe.
Fico sentada na recepção por um tempo, assistindo A Patrulha Canina, com a mais nova. Ela sabe todas as cenas. E ficamos as duas ali, rindo.
Então, chamo-as para almoçar.
A mais velha quase pulou, mas a idade não permite. Então, discretamente colocou a mão na barriga e disse que estava com muita fome.
A outra, mais nova, três anos, pulou de alegria.
Sua alegria maior que o normal. Mostrou seu sapato dourado. "Foi papai quem deu". Estava limpinho. Tinha lavado. O short de estrelas douradas. "Vovó quem deu". Que combina com o sapato. E sua camiseta de gatinho.
Fiquei pensando em como é maravilhoso decidir apenas a roupa que precisamos vestir. E nada mais.
Enquanto esperávamos a mais velha buscar minha bolsa no quarto, a mais nova viu bolas nas nuvens, árvores pequeninas e as grades na calçada, que servem para a água da chuva escoar.
Ela, curiosa, perguntou para que servia aquele buraco.
Quando criança eu era assim. Ainda sou. Gosto de perguntas. Porque gosto de respostas. Gosto de conhecimento.
Expliquei que era para água da chuva cair.
Ela me contou, com os olhos brilhando como só os de uma criança brilham, que ela e a mãe tinham tomado banho de chuva. A água estava gelada. E elas tomaram banho DE ROUPA. Ela riu com a lembrança.
Foi até mais perto, olhou e disse que o buraco era bem fundo. Não era, mas não a contrariei. Para o tamanho dela era sim.
Quando a irmã chegou, contou sobre a grade e o buraco. E para que servia. Ah, como é bom o conhecimento!
Fomos pela rua. Ela, numa alegria, numa felicidade enorme.
É tão fácil e simples ser feliz quando se é criança. É preciso tão pouco.
Do outro lado da rua, viu a fachada de um buffet que era a Arca de Noé, lotada de animais.
Ela gritava, e sorria. "Vovó eu gosto muito de bichinhos. Olha, vovó os bichinhos. Eu gosto muito."
Ela andava pela rua saltitando. Vendo, enxergando tudo. Dando tchau para o caminhão. Querendo ver o buraco que tinha em frente à Caesb. Vendo as árvores, as motos, os carros.
Era tanta alegria que as gotas doces pulavam em cima de mim. Fechei meu guarda-chuva e bebi daquela água. Daquela doçura. Daquela alegria.
Então, vi a passarela à frente.
Não sei você, eu tive medo de passarela até meus quarenta anos.
Tenho aprendido que temos que vencer nossos medos, de uma forma ou de outra. Enfrentá-los.
http://www.espalhandoasemente.com/2015/10/sr-ressonancia-magnetica.html
http://www.espalhandoasemente.com/2016/06/golias-e-vencido.html
Não sei se ela já havia atravessado uma passarela. Tudo que eu queria era que fosse uma experiência que não lhe desse medo.
Somos nós que instauramos o medo nas crianças.
Mostrei onde íamos almoçar e perguntei como íamos até lá. Fui subindo a passarela. Fomos andando rápido. Ela sorrindo, alegre. E dizia, rindo: “Vovó eu tô zonza, vovó eu tô tonta.” Mas fomos subindo. Continuou andando. Sem se importar com a altura. Quando chegamos no meio, mostrei para ela os ônibus e os carros. Ela estava fascinada.
O sapatinho dela soltou. Ela se abaixou para arrumar. Soltou minha mão. Uma moto fez um barulhão. Ela levou um susto. Me deu a mão e só.
Ia começar a descida.
Falei para ela que nós não podíamos nos soltar, senão iríamos rolar igual uma batatinha. Ela não sorria mais. Ela gargalhava. Descia rapidinho. E gargalhava.
Aquelas gargalhadas me encharcaram. Abri a boca e bebi delas. Gotas doces de alegria.
A mais velha disse que estávamos parecendo duas doidas. E nós duas só ríamos. Enquanto ela gargalhava, eu bebia suas gotas.
Lembrei que havia feito parecido com a mais velha. Agora era a vez da mais nova. A mais velha é a doçura em pessoa. Sempre.
O olhar de uma criança sorrindo é simplesmente maravilhoso. Gotas de felicidade caindo sobre mim. Sem que eu precisasse fazer nada. Eu abria a boca e engolia. Tudo. Queria ser completamente encharcada com aquelas gotas deliciosas.
Quando chegamos lá embaixo ela ria, ria, e ria. Estava cansada. De tanto rir. Ah, que cansaço delicioso.
Almoçamos. Quando veio o prato e ela viu a batatinha frita, gritou: Olha vovó. Igual a batatinha rolando, igual batatinha.”
E ria, ria, ria. Era a personificação da alegria, da felicidade.
Como é bom ser criança. Quero ser para sempre.
Almoçamos. Ela come igual a um passarinho. Falei para ela comer tudo para ficar forte e não rolar da passarela igual batatinha. Cada vez que eu falava, era motivo dela gargalhar.
Fomos para a passarela. Primeiro a subida. E ela: “Vovó, eu tô zonza, vovó eu tô tonta.” Falava e ria.
Quando chegamos em cima, olhou tudo lá de cima.
Chegou a hora de descer. “Vovó a gente vai rolar igual batatinha.”
Pedi à mais velha que desse a outra mão para ela. Estava tão cansada que realmente tive medo da felicidade dela fazer a gente rolar mesmo, igual batatinha.
Fomos descendo. As três de mãos dadas e rindo. Ela descendo e gritando. Aquela alegria, aquela felicidade. Ela foi descendo e gargalhando, falando que íamos rolar igual batatinha.
Depois que descemos, continuou curtindo o caminho. Passamos pelo buraco que eu havia mostrado. Ela quis ver de novo. Peguei no colo para ela ver. Depois, continuou andando.
Percebi que estava muito cansado. Foi muita energia gasta naquela felicidade toda que me encharcou.
Perguntei se estava cansada. Disse que sim. Mas não pediu "colinho". Perguntei se ela queria. Disse que sim. Mas não aguentei. Dei uns dois passos. Ela desceu, obedecendo à irmã, sem reclamar.
Quando chegamos na calçada do hospital, quis ir por cima da grade, olhando tudo lá embaixo. Sem medo.
Até bem pouco tempo, eu também não tinha coragem de passar por ali.
Quando chegamos ao hospital, me deu um abraço tão carinhoso e um beijo tão gostoso, que suspirei. Eu disse: “Ai que delícia”. E ela me abraçou mais e mais apertado. Várias vezes.
Depois pegou minha mão, me levou para a frente da calçada para dançarmos.
Eu, adulta, quebrei o encanto. Falei que não tinha música.
Que insensibilidade a minha. Existe música sim. Está em nossas almas.
Felizmente ela não acreditou em mim. E dançou assim mesmo. Até ficarmos tontas.
Netos, gotas doces de vida.
A GTT foi um sucesso.
Hoje pude ir para casa descansar. Minha outra filha ficou no hospital.
Cheguei em casa, tomei um banho daqueles, cantando com os Quatro e Meia.
https://www.youtube.com/watch?v=a4VMX0q-yQ4
Coloquei meu melhor sorriso e voltei ao hospital.
A vida é assim. Deus, o maravilhoso Senhor, sempre nos dá um refrigério.
Gotas doces de vida e alegria. Que podem vir de várias maneiras.
Logo estaremos em casa.
Uma nova rotina. Sobrevida.
Vida.
E veremos mamãe sorrir novamente.
O Senhor é bom. Sempre.
https://www.youtube.com/watch?v=c5U6FDoaCvQ
E meu coração continua cheio de alegres gotas de vida.
Ah, netos! Gostas doces de alegria.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Alzheimer, o Cruel

Chegou assim, sorrateiro.
Um esquecimento aqui. Uma confusão ali.
Vieram dores. Um emagrecimento absurdo.
Recuperação.
Depois, vieram as reações que não entendíamos. Agressividade que não fazia parte de sua vida.
Então, o diagnóstico: Demência vascular e Alzheimer.
Não, pensamos, isso não acontece conosco. Não na nossa família.
Não sabemos como agir.
Minha mãe? De jeito nenhum. Uma mulher que nos ensinou o verdadeiro sentido do cristianismo? Doação. Amor. Perdão. Bondade. Misericórdia. E tantas outras coisas.
Não pode ser. Não sabemos como agir. Nunca pensamos que passaríamos por isso. São coisas que acontecem com os outros. Não em nossa família.
Não fomos preparados. Não estamos preparados.
E quando ela não souber mais quem é? Não souber meu nome? Me confundir com alguém? Não vou resistir. Vou morrer.
Não estou preparada. Como passar por isso?
Mas a vida não nos espera. Ela acontece.
E nem sempre é como queremos.
Chegou sorrateiro. E foi se infiltrando em tudo. Virou parte da rotina. Do dia a dia.
Ouvindo coisas absurdas. E se escondendo no banheiro. Para chorar.
E aprendendo. E resistindo. E ficando forte. E sorrindo.
Ah, se não fosse o Senhor ao nosso lado! Impossível sobreviver.
Hoje quase não me chama pelo nome.
Diz sempre que podemos esquecer tudo, menos o Senhor Jesus.
Às vezes sou a mãe dela, na maioria das vezes a irmã mais velha que dela cuidou, algumas raras vezes sou a filha.
Que me importa? Sei quem sou. Independente do nome pelo qual me chama, sei minha identidade. E independente do que ela lembra ou esqueceu, sei quem ela é. Sei sua identidade. E ela não será falsificada ou trocada. Por ninguém. Nem mesmo esse cruel Alzheimer.
E a vida segue.
Um remédio a mais. Uma tarefa acrescentada aqui, Outra ali.
Não escolhe mais a roupa. Esqueceu os cremes que sempre passou, diariamente. Agora precisa usar fralda. Demora minutos para se vestir. Muitas vezes não consegue se vestir. O banho, acompanhada.
Mãe, come. Mãe, levanta. Mãe, senta. Mãe, devagar. Mãe, se arruma. Mãe, a senhora está torta. Mãe, a senhora está caindo.
Acompanho sua descida. Procuro segurar em sua mão.
Às vezes, um degrau. Outras, vários de uma vez. E continua descendo. E eu, ajudando como posso.
Achei que não conseguiria. Não teria forças. Mas estamos descendo. Juntas. Não posso deixá-la sozinha nessa caminhada. Não quando ela sempre esteve comigo.
Muitas vezes sorrio, quando tenho vontade de chorar. E sento ao seu lado, quando tenho vontade de correr. E me vejo fazendo coisas que achava impossível até algum tempo atrás.
E a vida continua. Até quando? Não sei.
O Senhor da vida sabe. E Ele sempre é bom.
Aprendendo as lições. Uma internação após outra. UTI não me desespera mais. Nem andar de ambulância, até com a sirene ligada.
Encarando a realidade. Comprar fraldas. Protetores. E tantas coisinhas que não faziam parte do nosso universo.
Planejando o futuro. Para ser o melhor para ela. O menos dolorido.
Esperando sempre um beijo, um abraço e um sorriso.
Agora mais um degrau. O mais largo até agora.
Não sente mais fome. Ela que sempre comeu bem. E de tudo. E com preferências. Não, não quer mais comer.
E mais uma vez vai para o hospital. E continua sem querer comer. E toma soro. E coloca sonda. E arranca tudo. E não tem solução. Só uma: GTT. Nem sabia o que era isso. Bem, agora sabemos. E teremos mais coisas para aprender. E sobreviver. E viver.
Ele chegou, sorrateiro e foi ficando, fazendo parte da rotina, do dia a dia e do futuro. Com suas garras afiadas. Querendo nos envenenar. Mas nunca conseguirá apagar quem é minha mãe. Nem quem somos nós.
Todos que um dia a conheceram, sabem perfeitamente quem ela é. Sua identidade está nela, mesmo não se lembrando mais. E está em cada um de seus filhos, netos e bisnetas. Seus sobrinhos. Parentes. Amigos.
E assim será.
Até o dia em que o Mestre chamá-la para andar com Ele em Seu jardim.
Então, como Paulo ela poderá dizer: “Combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a fé.” – 2 Timóteo 4.7
E suas sementes ficarão plantadas em nós. Para sempre.
“Mulher virtuosa, quem a achará? O seu valor ultrapassa os das mais finas joias.” – Provérbios 31.10